Inda que de eu mijar tanto gosteis,
que vos mijeis com riso, e alegria,
haveis de ver de siso inda algum dia,
porque de puro gôsto vos mijeis.

Então dêstes dois gostos sabereis,
qual é melhor, e qual de mais valia:
se mijares-vos vós na pedra fria,
se mijando eu tapar, que não mijeis.

À fé, que aí fiqueis desenganada,
e então conhecereis de entre ambos nós,
qual é melhor, mijar, ou ser mijada.

Pois se nós nos mijamos sós por sós,
haveis de festejar uma mijada,
porque eu a mijar entro dentro em vós.

 

Gregório de Matos Guerra

 

Millor Fernandes

 

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

“Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra carlho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fudendo”. O “Nem fudendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Telibera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro para ir surfar no litoral? Não perca tempo, nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FUDENDO!.” O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso Ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”,ou seu correlato “Puta-que-o-pariu!”. Falados assim, cadencialmente, sílaba por sílaba, diante de uma notícia irritante, qualquer “puta-que-o-pariu!” te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o tempo devido e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no Cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu Cu!” Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu Cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoe a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fudeu!” (os puristas dizem “fodeu”). E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fudeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar : O que você fala? “Fudeu de vez!”.

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!” O “foda-se” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor, reorganiza as coisas. Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na constituição Federal.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A racha nas entreperna
não há mulher que não tenha
quem quiser ouvir que venha
que eu vou descrever cada qual
as molhada e as sequinha
as cabaço e as sozinha
e aquelas que cheiram mal.

Vou falar primeiramente
com esta cara deslavada
da tal xoxota molhada
que chega a cheirar orvalho
tá sempre lubrificada
piscando desesperada
pedindo por um caralho.

A seca bem ao contrário
é coisa de mulher fria
querendo ficar prá titia
se renegando prá o macho
precisa de muito arreto
dedaço e chupão nos teto
prá vê se aceita o piçaço.

Não posso esquecer daquelas
que nunca foram exploradas
bucetas jamais tocadas
por um tarado qualquer
apertadas qual cú de macho
fechadas por um cabaço
esperando prá ser mulher.

Por outro lado há aquelas
geralmente de coroa
que ficam excitadas a toa
por lhe faltar companhia
de um nego véio piçudo
que entre rasgando tudo
e lhe faça gritar de alegria.

Mas as piores são as fedidas
que cheiram a bacalhau
mais agre do que um fel
e nos penteio seborréia
que só de pau encapado
dá prá coxiar descansado
sem pegá uma gonorréia.

Mas enfim todas são boas
cada qual com seu encanto
e uma coisa eu garanto
neste melô da buceta
não adianta companheiro
chegar perto e sentir o cheiro
prá depois bater punheta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Pequenos Delitos

 

Suruba é como nota de 100 reais. Todo mundo sabe que existe, mas pouca gente já viu uma de perto.

Até mesmo um sexológo prático e ginecologista amador como eu, com muitos anos de experiência fescenina (vá conferir lá no Aurélio), professor de libidinagem, defensor de todo e qualquer processo erotosocializante, pois bem, até mesmo eu, enquanto indivíduo no mais profundo do meu ser putárico, só participei de duas (qualquer dia desses, quando o tempo e a inspiração se encontrarem, contarei em detalhes), das quais tirei algumas lições que compartilho agora com vocês.

Antes, porém, deixo claro que suruba tem que ter no mínimo 5 pessoas, porque com 3 é ménage à trois e com 4 é swing, variações praticadas comumente pelas melhores famílias.

1 :: O ponto mais crítico é a escolha dos participantes. Só convide gente alto-astral, de bem com a vida.

2 :: Evite: mulher bonita demais e homem bonito demais. Existe uma tendência natural das atenções se voltarem para essas pessoas, gerando engarrafamentos. É importante que todos tenham as mesmas oportunidades de se dar bem.

3 :: Proiba a entrada de gente depressiva, ciumenta, drogada, emocionalmente frágil, enfim, complicados em geral.

4 :: O ideal é um número ímpar de pessoas, preferencialmente, deve sobrar uma mulher.

5 :: O ambiente: deve ser espaçoso e confortável, luz difusa e fuck-music rodando sem parar.

6 :: Bebidas: vinho, uísque e roskas. Mas em pouca quantidade. Bêbado em suruba só faz merda.

7 :: Material de apoio: muitas toalhas limpas, zilhões de camisinhas espalhadas pelo ambiente, kilos de KY, vibradores e outros brinquedinhos. Câmera fotográfica só com a autorização explícita de todos os participantes.

8 :: Outro ponto delicado é quando e como começar. Quem toma a iniciativa? Como quebrar o gelo? Vale a criatividade, o bom-senso e a capacidade de improviso dos participantes. Joguinhos de strip (aqueles em que quem perde tira uma peça de roupa) sempre ajudam.

9 :: Boca de siri. É altamente condenável sair contando detalhes e dando nome aos bois e vacas (sem ofensas, tá?). Lembre-se: quem come e guarda, come duas vezes.

 

 

 

A buceta de minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono das secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo baiano.

A buceta de minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do universo.

A buceta de minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta de minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta de minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme ao meu ouvido
quando a gente fode.

 

Braulio Tavares

 

Braulio Tavares (1950, Campina Grande, PB). Escritor, compositor. Publicou, entre outros, A espinha dorsal da memória. Contos (Lisboa/Rio de Janeiro: Caminho/Rocco, 1989/1996); Mundo fantasmo. Contos (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1996/1997); Como enlouquecer um homem: as mulheres contra-atacam. Humor (Rio de Janeiro/São Paulo: Editora 34/Círculo do Livro, 1994/1997) e A máquina voadora. Romance (Rio de Janeiro/Lisboa: Rocco/Caminho, 1994/1997). Escreve sobre Cultura, todo dia, no Jornal da Paraíba.